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terça-feira, 12 de outubro de 2010

Trauma

O território disponível para as espécies selvagens tende a diminuir e a fragmentar-se devido ao contínuo aumento e diversificação de vias de comunicação e diversos tipos de construções humanas. Por essa razão, aumenta a probabilidade da ocorrência de lesões traumáticas relacionadas com os atropelamentos e as colisões (com janelas, cabos eléctricos, postes, etc.). As lesões resultantes destes traumas são quase sempre fracturas de membros, de maior ou menor gravidade, e com maiores ou menores complicações consoante o tempo que decorre entre o trauma e a altura em que o animal é recebido, devido à contaminação com detritos, bactérias e larvas de moscas.

Mas, por vezes, nem são as fracturas que constituem as principais complicações, mas sim outros problemas que as acompanham, como lesões irreversíveis de diversos órgãos, por exemplo a nível ocular, crânio-encefálico e medular, bem como as luxações ou hemorragias internas. Os traumas derivados de tiros e armadilhas provocam lesões semelhantes, e de difícil recuperação na maior parte dos casos.


Foto: Coruja-do-mato (Strix aluco) recolhida na Figueira da Foz com parésia posterior após trauma por atropelamento.

O trauma pode ter várias origens, no entanto o atropelamento é a causa número um dos ingressos de animais no CERVAS correspondendo a cerca de 20% dos ingressos totais no ano de 2009, a par da queda do ninho. No entanto, fazendo uma análise mais pormenorizada detectamos que no ano de 2009, dos 80 ingressos de animais atropelados apenas um terço chegaram vivos ao centro, e na maior parte das vezes em muito más condições físicas. Dos animais que chegam vivos uma grande parte morre em menos de 48 horas, período crítico para a sua estabilização, e que revela o grau de debilidade e a condição física, e significa que já chegam numa situação muitas vezes irreversível. Durante o ano de 2009 apenas 28% dos animais que ingressaram vivos por atropelamento voltaram a ser devolvidos à natureza.

Considerando os dados do CERVAS as vítimas mais comuns de atropelamento são a herpetofauna, as aves e os mamíferos. No ano de 2010 até ao momento já ingressaram 58 animais vítimas de atropelamento dos quais 10 são anfíbios/répteis, 19 mamíferos e 29 aves. O número de ingressos de anfíbios e répteis está obviamente muito longe da realidade da sua mortalidade nas estradas. A razão pela qual estes animais não chegam ao centro talvez se deva aos mitos associados a eles, em que normalmente existe por parte da população uma certa aversão e desconhecimento perante este grupo.

No caso dos mamíferos a situação é parecida: dos 19 ingressos no centro, 17 desses animais já chegaram mortos, e os outros dois morreram em menos de dois dias o que significa que já vinham em muito mau estado. Normalmente os animais vítimas de atropelamento morrem no momento, e são deixados nas estradas. Esta problemática está à vista de todos, e seria necessária a união de vários esforços no sentido da recolha destes animais, e num contexto mais preventivo, a construção de barreiras que impedissem a entrada destes animais nas estradas, de forma a evitar acidentes como acontecem todos os dias, todos os anos.

Foto: Recepção de um Bufo-real (Bubo bubo) atropelado na auto-estrada A25 na zona da Guarda

Por outro lado o ingresso de mamíferos vivos vitimas de atropelamento é mais raro pois estes animais quando feridos têm a tendência de se esconderem nos seus abrigos o que torna difícil a sua detecção e consequentemente a sua recuperação. A situação das aves é oposta já que usam o voo para se deslocarem, após o trauma caem ao chão e aí ficam, tornando mais fácil a sua detecção e encaminhamento para o centro. Sendo assim, e existindo um esforço no processo de entrega destes animais ao centro, as probabilidades de sucesso na recuperação aumentam. Dos 29 ingressos deste ano de aves, 8 já chegaram mortas, 6 estão em recuperação, 3 foram libertadas e as restantes 12 morreram nas primeiras 48h.

As espécies mais afectadas por atropelamento são na classe dos mamíferos: a raposa (Vulpes vulpes), a gineta (Genetta genetta), o ouriço-cacheiro (Erinaceus europaeus), o texugo (Meles meles) entre outros; na classe das aves aparece mais comummente o mocho-galego (Athene noctua), o milhafre-preto (Milvus migrans), o noitibó-cinzento (Caprimulgus europaeus) e a coruja-do-mato (Strix aluco). De um modo geral, os hábitos nocturnos dos mamíferos e de algumas destas aves propiciam o atropelamento, já que a falta de luminosidade nas estradas não permite a sua detecção de forma a prevenir o acidente. Por outro lado, algumas aves oportunistas, como é o caso do milhafre-preto, tornam-se vitimas exactamente por procurarem o alimento nas bermas das estradas, onde se encontram animais mortos.

Os traumas por atropelamento por si só já são uma causa de ingresso bastante importante, no entanto devemos também considerar os traumas de origem desconhecida e as colisões contra estruturas ou linhas eléctricas que perfazem um total de 43 animais que ingressaram no centro até à data. 95% Dos animais que sofrem este tipo de traumas são aves, e destes, 75% chegam vivos ao centro. Assim, logo à partida consegue-se perceber que existe uma disparidade entre a gravidade destes traumas e os de atropelamento. No entanto, destes, 31 serão traumas de causa desconhecida e é onde se encontra a melhor taxa de sucesso de recuperação, chegando aos 45%. Já no caso das colisões com linhas eléctricas a taxa de mortalidade atinge os 100%, os animais chegam em muito mau estado morrendo nas primeiras 48 horas, entram com fracturas irrecuperáveis, infecções, muitas vezes já com larvas e muito débeis. Nas colisões com estruturas a taxa de libertação ronda os 50%.


Mapa: Distribuição geográfica por freguesia dos ingressos no CERVAS devido a trauma (incluindo atropelamentos) entre 2006 e 2009.

A minimização dos impactes das estruturas que dão origem a ingressos por trauma nos centros de recuperação é difícil, mas, no sentido de tentar pelo menos recuperar os indivíduos que são encontrados ainda com vida é muito importante fazer a entrega rápida dos animais ao SEPNA-GNR ou directamente nos centros de recuperação. Assim, poderá ser efectuada uma avaliação do estado do animal e instaurado o tratamento possível e necessário dentro do mais curto espaço de tempo possível após o trauma, aumentando assim as possibilidades de sucesso na recuperação.

Infelizmente, o tempo de entrega dos animais nos centros de recuperação continua a ser demasiado longo, principalmente quando a recolha é feita pelas áreas protegidas que os mantém em pólos de recepção que apenas contribuem para um agravamento das lesões, uma vez que não é aí efectuado o diagnóstico e tratamentos adequados, contribuindo ainda para um gasto de tempo e recursos por parte de técnicos e Vigilantes de Natureza, completamente desnecessário. Este é um dos pontos críticos da Rede Nacional de Centros de Recuperação para a Fauna e que, a ser resolvido no futuro, seguramente levará a um aumento do número de animais selvagens devolvidos à Natureza por parte dos centros de recuperação.


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