quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Espécie do mês de Outubro: Noitibó-cinzento


O noitibó-cinzento (Caprimulgus europaeus) é uma ave de hábitos crepusculares e nocturnos, cujo tamanho varia entre 26-28 cm (75-100g), possuindo umas asas relativamente compridas (57-64 cm). A plumagem padrão castanho e cinzenta, permite que esta ave se torne imperceptível quando repousa sobre um ramo ou no meio da folhagem no chão durante o dia. Os machos distinguem-se por possuírem umas manchas brancas nas três primárias mais externas das asas e nos dois pares de rectrizes mais externas. Estas manchas só são visíveis em voo e a fêmea não as possui. Em voo pode ser confundido com o noitibó-de-nuca-vermelha (Caprimulgus ruficolis), apesar deste ser nitidamente maior (30-32 cm), e também com um cuco ou mesmo com um pequeno falcão.

Encontra-se distribuído e nidifica por todo o continente europeu, Noroeste de África e pela Ásia Central até à China, sendo que se encontra em elevado decréscimo no noroeste da Europa, tendo entrado praticamente em extinção em alguns países. É uma ave migradora, invernando principalmente na África subsariana. Nidifica em Portugal Continental, encontrando-se no nosso país, sensivelmente, desde Abril até Outubro, distribuindo-se por todo território, sendo mais escasso no Sul.


Habita desde zonas oceânicas até zonas continentais, preferindo zonas secas, abertas, bem drenadas, tais como bosques de coníferas e de folhosas não muito densos, clareiras de coníferas ou mistas, charnecas e zonas de cultivo intercaladas. A sua presença também é frequentemente detectada em terrenos ardidos em anos anteriores. Isto poderá acontecer devido à grande disponibilidade de alimento, sendo que a dieta do noitibó-cinzento é constituída essencialmente por insectos, como borboletas nocturnas (Lepidoptera), escaravelhos (Coleoptera) e moscas (Diptera). A captura dos insectos pode ser feita através de voos rasantes ao chão mantendo as asas em “V” aberto, conseguindo mudar de direcção rapidamente. Aproxima-se das suas presas por baixo ou pelo lado, abrindo a boca imediatamente antes de as capturar. Também pode caçar a partir de pousos, capturando 2-3 presas, regressando ao pouso onde as presas são engolidas vivas e inteiras. Caçando a partir de um pouso, o noitibó-cinzento pode capturar cerca de 15 insectos em 15 minutos. Já em voo pode capturar cerca de 12 insectos em cerca de 1 minuto.


A época reprodutora do noitibó-cinzento situa-se entre Maio e Agosto, nidificando em clareiras ou zonas abertas e secas. A postura de 1-2 ovos, raramente 3, é feita directamente no chão ou sobre vegetação rasteira, começando a incubação logo a partir do primeiro ovo, durante 17-18 dias, podendo chegar a 21 dias se o ninho for perturbado. A incubação é feita maioritariamente pela fêmea, sendo substituída pelo macho durante o amanhecer e o crepúsculo. As crias podem abandonar o ninho 16-17 dias depois de nascerem, continuando a ser alimentadas pelos progenitores, sendo capazes de voar com cerca de 32 dias de idade, tornando-se assim independentes.


Na Europa esta espécie apresenta um estatuto de conservação Desfavorável (SPEC 2) e em Portugal o noitibó-cinzento está classificado, segundo o Livro Vermelho dos Vertebrados, como Vulnerável, devendo-se à reduzida densidade e declínio continuado da população. Os poucos estudos que existem com esta espécie, apontam como principais causas a perda de habitat, abandono de práticas agrícolas tradicionais, uso de pesticidas e as mudanças climáticas. Outras causas como o atropelamento e a predação por animais domésticos também têm sido apontadas como grandes factores para a continuada diminuição desta espécie. E são estas também algumas das principais causas de entrada desta espécie no CERVAS, sendo que em alguns casos não é possível a sua recuperação devido à gravidade das lesões. Quando as lesões são menos graves e a recuperação possível, o que torna este processo mais complicado é a necessidade de manusear a ave para alimentar, levando à perda de penas devido ao stress. Para que isso não aconteça, toda manipulação da ave deve ser realizada de uma forma muito cuidadosa, aumentando assim a possibilidade de se conseguir devolver a ave à natureza, com a plumagem em excelentes condições. Em 2010 conseguimos recuperar com sucesso e devolver à natureza 2 noitibós-cinzentos, algo que ainda não tinha sido possível em anos anteriores. Isto deveu-se ao facto de se reduzir ao mínimo indispensável as vezes que as aves eram manuseadas, sendo que quando necessário era realizado com extremo cuidado.

2 comentários:

João Fernandes disse...

Como se pode tratar um noitibó

CERVAS disse...

Boa tarde João,

recomendamos que o noitibó seja entregue num centro de recuperação, directamente ou através do SEPNA-GNR (217503080/808200520), porque será necessário fazer uma avaliação das lesões, condição física, etc e proceder aos tratamentos necessários. Em relação ao maneio, trata-se de uma espécie bastante complicada, com uma plumagem muito frágil, e que requer alimentação regular.

Ricardo Brandão
Coordenador / Médico Veterinário do CERVAS