sexta-feira, 27 de maio de 2011

Espécie do mês de Maio: Chapim-real

O chapim-real – Parus major, Linnaeus 1758 – é facilmente reconhecido pela máscara facial típica da família Paridae: tem colar e coroa pretos, faces brancas e uma lista preta da garganta até ao abdómen, característica que nos permite distinguir macho de fêmea, sendo a do macho mais larga. O seu dorso é cinzento-esverdeado, com as asas azuladas, e o peito amarelo (1). O chapim-real é o maior dentro da família Paridae, medindo entre 13,5 – 15,0 cm. Os juvenis são semelhantes às fêmeas, podendo a risca preta do peito ser mais fina ou até mesmo descontínua (2).

É uma das aves florestais mais amplamente distribuída no nosso país, sendo menos comum nas zonas de maior altitude, especialmente acima dos 1000m de altitude. Espécie essencialmente arborícola, o chapim-real ocupa vários tipos de habitats: bosques de folhosas, montados de sobro e azinho, soutos, carvalhais, matas de resinosas, matas ribeirinhas, olivais, pomares, etc. (3).


Sendo uma espécie florestal e particularmente vocal, é mais facilmente detectada pelo seu canto do que visualmente (1, 3). Emite diversos sons ao longo de todo o ano e o seu reportório é tão variado que muitos dos nomes vernáculos portugueses para esta espécie são onomatopaicos. Os machos começam a cantar em finais de Setembro e podem ouvir-se em todo o seu esplendor desde Janeiro até meados de Junho (3), podendo os machos cantar até 8 melodias diferentes. Quanto maior o número de melodias e a sua complexidade, maior será o sucesso do macho na defesa do seu território (4).

Em Portugal, a população de chapim-real é considerada residente comum, mesmo em zonas serranas como a Peneda-Gerês. Existe também o registo de recaptura de aves anilhadas no Norte da Europa, e também, dentro do nosso país, já foram registados movimentos importantes desta espécie (3).


Alimenta-se de uma grande variedade de insectos, nomeadamente lepidópteros, coleópteros e aranhas, e de frutos e sementes no inverno (3). Depois de recolher o alimento, o chapim-real segura-o nas suas patas enquanto o come, uma característica desta família, podendo também ser observado de cabeça para baixo ou de lado enquanto se alimenta.

O chapim-real é uma espécie monógama (embora possam ocorrer copulações extra-conjugais) e os territórios que estabelece nos finais de Janeiro, para a época de nidificação, são defendidos a partir do final do Inverno ou início da Primavera (5) e são geralmente reocupados no ano seguinte (6).

Na época de nidificação, ocupa geralmente cavidades de árvores, mas também ocupa facilmente caixas-ninho. A sequência de eventos desde a colocação de material na cavidade do ninho até à primeira postura varia consoante a zona do país, mas regra geral, o chapim-real realiza a primeira postura durante o mês de Abril, embora existam registos de posturas realizadas em inícios de Março e Maio. Caso a primeira postura seja feita cedo, existe a possibilidade de se dar uma segunda postura, posturas essas que podem ser de 3 a 9 ovos (3).

Caixa-ninho CERVAS C27/10/PA

A incubação dos ovos fica a cargo da fêmea, que é alimentada pelo macho durante esses 12 a 15 dias. A eclosão está normalmente associada ao pico de abundância de alimento e, consoante as condições ambientais, pode ser manipulada, atrasando o início da incubação ou fazendo pausas durante a incubação (7). Às suas crias, o casal de chapim-real fornece aranhas nos primeiros dias depois da eclosão e, depois, nos dias que se seguem, alimento que se encontre disponível para os requisitos nutricionais das crias: por exemplo, alimenta as suas crias com lepidópteros quando estes se encontram na fase larvar do seu ciclo de vida (8).

Caixa-ninho CERVAS C27/10/PA

As crias são alimentadas pelos pais no ninho durante 16 a 22 dias após a eclosão. Depois do fledging, continuam a ser alimentadas pelos pais por mais 8 dias e, em alguns casos, mesmo depois de se tornarem independentes (7).

Caixa-ninho CERVAS C27/10/PA (16-05-2011)

Ao longo dos anos as aves têm sofrido uma grande pressão devido ao desenvolvimento e expansão humana, o que leva a uma fragmentação dos seus habitats e consequente diminuição e mesmo destruição de locais de nidificação, sendo esta uma das causas para a diminuição das populações de algumas espécies de aves. Esta diminuição não só é obviamente negativa para as espécies em causa como também para nós, pois muitas destas espécies são uma grande ajuda no combate de algumas pragas, como p.e. insectos e roedores.

Caixa-ninho CERVAS C27/10/A (16-05-2011)

Uma das formas de apoiar a conservação destas espécies poderá passar pela colocação de caixas-ninho, potenciando assim a sua reprodução. As caixas-ninho funcionam como ninhos artificiais que podem ser colocadas no exterior, sendo facilmente feitas em casa, e que são cada vez mais importantes no que toca à conservação de espécies de aves.

Para a construção das caixas-ninho deve utilizar-se um material resistente e duradouro, como a madeira, o material mais usado para este efeito. Deve ter uma abertura (buraco ou janela) na parte mais alta da caixa, um tecto à prova de água, que deve ser maior do que a caixa para proteger a entrada da chuva e da luz directa do sol, e um meio de fácil acesso quando for necessário limpar (9).

Aqui fica um quadro com as dimensões da caixa, consoante a espécie, que poderá utilizar para construir uma caixa ninho e colocar no seu jardim.


Esquema para a construção de uma caixa-ninho para passeriformes.
Fonte: Blog BiodiverCidades, disponível em: http://naturezaartehumana.blogspot.com/2010/09/caixas-ninho-para-aves.html

Uma das caixas-ninho colocadas no CERVAS em Julho de 2010 foi este ano ocupada por um casal de chapim-real. O casal criou 7 crias e todas elas saíram com sucesso do ninho no passado dia 17 de Maio. A equipa do CERVAS assistiu e registou o primeiro voo destas crias.

(1) Aves de Portugal: chapim-real, acedido em http://www.avesdeportugal.info/parmaj.html , a 21/05/2011;
(2) Svensson, L., Grant, P. J., Mullarney, K. & Zetterstöm. 1999. Collins Bird Guide: The Most Complete Guide to the Birds of Britain and Europe. HarperCollins Publishers Ltd. Londres. 2nd edition, 2009. Pp. 448.
(3) Catry, P., Costa, H., Elias, G. & Matias, R. 2010. Aves de Portugal: Ornitologia do Território Continental. Assírio & Alvim, Lisboa. ISBN: 978-972-37-1494-4.
(4) Krebs, J.R., Ashcroft, R. and Webber, M. 1978. Song repertoires and territory defence in the great tit. Nature, 271, 539–542. In Kaplan, G. & Rogers, L. Birds: theis habits and skills. Allen & Unwin. 2001.
(5) Krebs, John R. 1971. Territory and breeding density in the Great Tit, Parus major L.
(6) Harvey, Paul H.; Greenwood, Paul J. & Christopher M. Perrins. 1979. Breeding area fidelity of Great Tits (Parus major). Journal of Animal Ecology 48 (1): 305–313. Acedido em: http://jstor.org/stable/4115 , a 23/05/2011
(7) Gosler, A., Clement, P. 2007. Family Paridae (Tits and Chickadees). In del Hoyo, J., Elliott, A., Christie, D. Handbook of the Birds of the World. Volume 12: Picathartes to Tits and Chickadees. Barcelona: Lynx Edicions. pp. 662–709. ISBN 9788496553422.
(8) Royoma, T. 1970. Factors governing the hunting behaviour and selection of food by the Great Tit (Parus major L.). Journal of Animal Ecology 39 (3): 619–668. Acedido em: http://jstor.org/stable/2858 , a 23-05-2011.
(9) Aves virtual: ninhos artificiais, acedido em http://www1.ci.uc.pt/aves/pninhos.htm , a 23/05/11 (10) Blog BiodiverCidades (Cultivar Ideias), acedido em: http://naturezaartehumana.blogspot.com/2010/09/caixas-ninho-para-aves.html , a 23/05/11 Ecology 52 (1): 3–22.

Sem comentários: