quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Biomonitorização de Aves Aquáticas

O stress ambiental induzido quer por processos naturais quer, particularmente, pelas actividades antropogénicas, assume-se cada vez mais como um factor de risco acrescido para a conservação das espécies. Neste contexto, a ecotoxicologia (ou toxicologia ambiental) afirma-se cada vez mais como uma ferramenta indispensável na monitorização da qualidade ambiental e avaliação/identificação de riscos para a avifauna.

Na sequência de um estágio profissionalizante da Licenciatura em Biologia pela Universidade de Aveiro desenvolveu-se um estudo de toxicologia ambiental em Ciconiiformes, Pelecaniformes e Charadriiformes com o objectivo de avaliar algumas condições de stress à qual estas espécies estão expostas no ambiente. Nesse sentido, duas linhas de estudo foram seguidas, tendo-se quantificado a acumulação de mercúrio em diferentes tecidos e adicionalmente avaliada a actividade de algumas enzimas em sangue, indicadoras da presença ambiental de contaminantes nocivos para os organismos.

Figura 1. Cegonha-branca (Ciconia Ciconia) e Corvo-marinho-de-faces-brancas (Phalacrocorax carbo), duas das espécies-alvo deste estudo (Imagens retiradas do site Aves de Portugal e da autoria de Armando Caldas e D’Almeida Simões, respectivamente).

Através dos resultados obtidos foram detectados, entre outros aspectos, valores de mercúrio significativamente mais elevados em espécies piscívoras como o corvo-marinho e o ganso-patola (Morus bassanus), ao contrário de espécies com hábitos alimentares mais generalistas, como a cegonha-branca. Estes dados são importantes, uma vez que sustentam a hipótese de que a principal via de contaminação de mercúrio em aves e outros predadores de topo se deve ao consumo de peixe contaminado. Apesar de em alguns indivíduos terem sido registados valores particularmente elevados de mercúrio no fígado, não foi possível estabelecer qualquer relação entre esses valores e a mortalidade dos animais dada a escassez de dados a relacionar estes dois aspectos.

Além da medição do mercúrio no fígado de aves mortas foi ainda quantificado este contaminante no sangue, pois esta análise pode reflectir, de forma mais directa, os teores de contaminação à qual os indivíduos estão expostos no ambiente. Na maioria dos casos foram registados valores inferiores ao intervalo limite de 0.5-1 ppm (ppm = mg/kg) permitido pela União Europeia em peixe e produtos alimentares derivados. Isto pode significar que, apesar da maioria das espécies de aves aquáticas acumularem teores elevados de mercúrio ao longo das suas vidas, estas não estão tipicamente expostas a concentrações de mercúrio na sua dieta susceptíveis de causar efeitos agudos.

Figura 2. Concentrações médias de mercúrio em diferentes espécies aves (peso seco). Resultado referente apenas à análise de uma amostra.

Relativamente à segunda componente deste estudo, realizada em cegonha-branca, garça-cinzenta e garça-vermelha (Ardea purpurea), foram obtidos alguns dados interessantes, embora a escassez de amostras não tenha permitido estabelecer quaisquer conclusões no caso das garças. Entre outros aspectos, observou-se uma clara inibição da actividade sanguínea da colinesterase, um indicador associado à contaminação por compostos organofosforados e carbamatos, frequentemente presentes em pesticidas.

Com o presente estudo procurou-se introduzir e adaptar o uso de técnicas ecotoxicológicas à monitorização da avifauna. Entre outros aspectos, este primeiro trabalho permitiu concluir que o uso destas ferramentas pode ser particularmente útil para diagnosticar factores de stress ambiental nas aves e, assim, traçar medidas mais incisivas na sua conservação. Mais trabalhos necessitaram de ser realizados nesta temática, de forma a ampliar os conhecimentos adquiridos através quer da monitorização de mais aves em cativeiro quer de indivíduos no seu habitat natural.

Cátia Santos, Bióloga

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